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Uma Vivência Devocional

Uma Vivência Devocional

Nos Centros da Fraternidade Rosacruz espalhados pelo mundo se realiza as reuniões devocionais às 18h30, hora local, onde é oficiado o Ritual Devocional (do Templo ou de Cura, nas suas datas). Nessas reuniões, os presentes cantam os Hinos de Abertura, Astrológico do mês e de Encerramento.

Recomenda-se aos Estudantes que, na medida do possível, assistam a essas reuniões, se bem que nem todos possam fazê-lo dado a obrigações ou compromissos intransferíveis. Cabe-nos observar, também, o cumprimento de nossos deveres sociais.

Àqueles impossibilitados de frequência há outra alternativa, aliás, extensiva a todos: efetuar a prática devocional no recesso do próprio lar. Quando surge uma boa oportunidade de recolhimento, não devemos deixá-la escapulir. Retiremo-nos para um cômodo tranquilo, preferencialmente isolado. Ali podemos orar, entregar-nos à leitura de temas bíblicos, meditar aos acordes suaves de uma melodia sacra, etc. e oficiar os Rituais Devocionais. Enfim, cada um poderá, a seu talante, compor a sua própria prática devocional.

Todavia, é importante ressaltar: isso tudo é devoção, mas a devoção não é só isso. Para assumir sua integralidade e produzir frutos ela deve transpor os limites formais das práticas acima mencionadas, ganhando corpo como VIVÊNCIA DEVOCIONAL. Entremeada de altos e baixos, a caminhada do Aspirante não se fortalecerá e consolidará enquanto não se alicerçar em uma VIVÊNCIA DEVOCIONAL.

Alguns Estudantes às vezes se queixam — e isso acontece desde o tempo de Max Heindel — de que, apesar de estudarem com afinco a Filosofia Rosacruz, notam ser muito lento seu progresso.

Com o correr do tempo, passam até a achar as lições repetitivas e monótonas.

Um Estudante, certa vez, escreveu a Max Heindel, afirmando que, em sua opinião, as Cartas mensais dirigidas aos membros da Fraternidade, nada mais eram que “pequenos agradáveis sermões”. Na verdade, ele estava era sequioso de novidades e mistérios. Não lhe importava extrair, dos textos, uma lição de fundo moral.

Fatos como esse, ocorrem com quem julga ser a Filosofia Rosacruz, apenas e tão somente um conglomerado de conhecimentos, formando um sistema filosófico estruturado em bases coerentemente racionais e lógicas. Não conseguem transcender sua intelectualidade, penetrando naquilo que ela tem de mais grandioso: sua capacidade de transformar, para melhor, o íntimo do ser humano.

Admitindo como notável a sua racionalidade, não lhe atribuem, talvez, aquele essencial caráter de religiosidade, capaz de permitir ao Aspirante, o reencontro com sua real natureza, isto é, a religação com o Eu Superior. Conceituam a Rosacruz pela óptica unilateral do intelectualismo. Não se lhes avulta, portanto, a perspectiva daquele equilíbrio tão enfatizado em lições, cartas, palestras: a união da Mente com o Coração, do intelecto com a devoção.

Nossa carreira, como Estudantes Rosacruzes, depende, inicialmente, e em grande extensão, da aquisição de conhecimentos. Através dos cursos, livros, conferências, temos acesso ao chamado “conhecimento indireto”. As informações concernentes à origem, evolução e futuro desenvolvimento do ser humano e do Mundo abrem-nos horizontes mais amplos. Orientam-nos. Dão-nos mais segurança na escalada desse íngreme caminho evolutivo, pela certeza infundida de que leis sábias regem o Universo, de cujo contexto somos parte integrante.

Mas é importante não esquecermos: essa é a primeira fase. É o passo inicial. A compreensão das verdades conhecidas deve fazer soar a corda do amor no mais recôndito do nosso ser. Satisfeita a Mente com o logicismo Rosacruz, o Coração deve vibrar numa vivência superior de serviço amoroso ao próximo. Sem isso não há progresso espiritual.

Na Escola Rosacruz não podemos prescindir do conhecimento intelectual. Esse, todavia, deve ser assimilado, digerido, trabalhado pelo coração e transformado em sabedoria. A verdade não assimilada é inútil. Apenas acrescenta-se ao nosso cabedal de conhecimentos. Mas se vivida, sentida, intuída, esta sim nos transforma em novas criaturas. Torna-se parte de nossa própria natureza. Converte-nos em sal da terra e luz do mundo. É sabedoria no mais profundo sentido do termo.

O conhecimento intelectual puro e simples constitui meio e não um fim em si mesmo. É elemento valioso como orientação e esclarecimento. Mas não deixa de ser informação. Informação apenas. Um computador também pode acumular informações. Toneladas de informações. Tal, porém, não o transforma em sábio. Há pessoas dotadas de vastíssimos e detalhados conhecimentos. São verdadeiras enciclopédias ambulantes. Outras há que, superficialmente, só memorizam datas e frases feitas. São verdadeiros computadores ambulantes.

A aplicação do conhecimento na vida prática, sempre objetivando beneficiar o próximo e aperfeiçoar as coisas, configura, realmente, uma vivência devocional. Fazer tudo o melhor possível — seja lá o que for — para maior glória de Deus, sem preocupação com os resultados, é imprimir um cunho superior à vivência devocional. A menos que nos esforcemos desse modo, continuaremos sendo como “sinos que tinem”. Se não temos amor e não o empregamos a serviço dos demais, de nada nos valerá conhecer os “mistérios”.

Quem vive devocionalmente a Filosofia Rosacruz não a julga repetitiva.

O dia-a-dia sempre lhe oferece novas oportunidades de servir com amor, pela utilização dos ensinamentos recebidos. Não vive desesperadamente à cata de novidades. A novidade, ele a encontra na constante descoberta interna daquilo que vivencia. Mas isso requer penetração além do estudo superficial. Demanda uma disposição para descobrir a harmonia, a beleza, o DIVINO, enfim, nas pessoas e nas coisas. Quando nos sensibilizamos ao sorriso de uma criança, ou ao colorido delicado de uma flor, estamos vivendo devocionalmente. A emoção que nos desperta o som natural emitido por um regato em seu fluir preguiçoso... O sentimento de empatia que nos envolve à vista do sofrimento alheio, estimulando-nos a estender a mão ao nosso semelhante... Quando do sentimento, passamos à ação... O cultivo do bom, do belo, do verdadeiro. A tudo isso chamamos de vivência devocional.

Talvez, na compreensão dessas coisas, aparentemente simples, encontrem, os Estudantes, as respostas aos seus problemas. É um tema merecedor de apurado exame.

(De Gilberto A V Silos - Publicada na Revista Serviço Rosacruz – 01/1978)