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Os Desalentados

Aos Desalentados

É comum ouvirmos jovens sadios e talentosos queixarem-se da vida. Porque uma tentativa de ascensão profissional malogrou ou determinado projeto não deu certo, abatem-se, tudo atribuindo a "falta de sorte", como se o mundo fosso uma gigantesca loteria. Mas não só os jovens se queixam. Pessoas de todos os níveis sociais ou culturais, algumas até em situação admiravelmente privilegiada, lamentam suas "infelicidades".

Alguns se deixam entorpecer pela inércia, alegando ausência de oportunidades. Decididamente, não amadureceram. Continuam sendo crianças esperando que todas as coisas se lhes aconteçam ou venham às mãos.
Analisemos a vida das pessoas festejadas por seus êxitos em algum campo de atividade: quase todas depararam com dificuldades incríveis no início de suas carreiras.

Muitas suportaram sofrimentos sem conta até o fim de seus dias. Tinham consciência dos obstáculos e de suas limitações, mas isso, longe de desanimá-las, lhes serviu de estímulo. Todo grande empreendimento, no início parece impossível.

Examinemos algumas biografias. Apenas a título de amostragem, constataremos como alguns "pobres rapazes sem sorte" mudaram não só o rumo de suas vidas, mas até a história de seu país ou os caminhos do mundo. Fulton com sua roda a vapor; Faraday com suas velhas garrafas e panelas de estanho nas águas furtadas de uma farmácia; Whitney com algumas ferramentas numa adega; Howe com agulhas e lançadeiras toscas montando uma máquina de costura, foram os espíritos indômitos capazes de dar um impulso ascensional a civilização. Alguns nasceram em lares paupérrimos, outros jamais pisaram o campus de uma universidade, mas seus nomes se imortalizaram pela sua contribuição ao bem da humanidade.

Nada há de mais fascinante do que a epopeia daqueles que, partindo de condições obscuras, souberam arrostar sofrimentos indescritíveis, até o triunfo final. Demóstenes perdeu seus bens em mãos de tutores, após a morte de seu pai. Apresentou-se no Foro em defesa de seus direitos. Era gago (tartamudo) e por isto foi desprezado. Dizem ter vencido esse defeito, colocando pedrinhas na boca e gritando a beira-mar, até dominar o ruído das ondas. Depois de bem adestrado, voltou ao Foro onde se tornou um Mestre da oratória. Foi um grande político e o maior orador da antiguidade. Contudo, no início era gago.

Alegar carência de oportunidades é um expediente muito maroto para justificar a falta de iniciativa. Certa vez perguntaram a Alexandre, o Grande, ao término de uma de suas campanhas, se era pretensão sua tomar outras cidades, havendo oportunidade.

- Oportunidade! - Exclamou - Como? Eu faço as oportunidades.

As pessoas valorosas não se desculpam: agem. Não param; seguem adiante. Não esperam ajuda de ninguém; fazem por si mesmas. Não esperam a oportunidade; criam-na. Aguardar oportunidades é um hábito nocivo. A espera esgota a energia e a inclinação para o trabalho. Não, não se deve esperar. É preciso agir, se movimentar. Nada de lamúrias. Nada de perder tempo com futilidades.

Sabemos ter sido Abraham Lincoln um dos maiores presidentes dos Estados Unidos. Esteve à frente da nação americana num dos momentos mais difíceis de sua história. Filho de modestos lavradores cursou, na infância, apenas um ano de escola. Caminhava a pé quatorze quilômetros por dia, para frequentar uma escola rural.

Chegava a andar oitenta quilômetros para que lhe emprestassem alguns livros. Vivendo num ambiente agreste e desconfortável, não mediu sacrifícios em sua brilhante trajetória. Formou-se em Direito, ingressou na política, tornando-se mais tarde o mais alto mandatário da nação. Alto, magro, desengonçado, linguajar meio "caipira", não era uma figura atraente. Como orador não era lá essas coisas, mas a convicção com que impregnava suas palavras fascinava e conquistava as multidões. Quem gostaria de começar a vida como Lincoln?

Aqui no Brasil, um Presidente da República iniciou sua vida como simples telegrafista. Uma ascenção dessas demanda coragem e energia, atributos quase que impossíveis de adquirir em meio à comodidade.

Alguém talvez pretenda objetar nossos argumentos, evocando casos de "destino maduro" para justificar eventuais insucessos. Realmente, o destino maduro existe. Quem conhece astrologia pode detectá-lo num tema natal. Ao astrólogo, todavia, não é dado prever até que ponto vai a força de vontade de um ser humano. Nem sempre um indivíduo se vê totalmente bloqueado em suas oportunidades. Excetuando-se casos extremos, há como dedicar-se a algo que pode redundar em êxito. É um exercício de fé e qualidade volitiva.

Exemplifiquemos: Beethoven, em um dado momento de sua vida, ficou irremediavelmente surdo. Isso lhe causou muito sofrimento. Foi, seguramente, um caso de destino maduro. Nem por isso ele deixou de compor a Nona Sinfonia, essa obra-prima do espírito humano.

Quem vai à cidade de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, não pode deixar de visitar sua igreja principal. Lá, encontrará as famosas estátuas dos doze profetas. São, dentre tantas obras-primas de autoria de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. O Aleijadinho, devido a uma grave enfermidade que lhe atrofiou os dedos, só trabalhava com as ferramentas amarradas ao pulso. Além de escultor era também arquiteto e entalhador. Deve ter padecido horrivelmente. Destino maduro? Provavelmente. Porém, a expressão de sua genialidade encanta aos quantos forem a Congonhas do Campo e Ouro Preto.

Por falar em genialidade, muitas pessoas a julgam como sendo uma concessão divina, uma oportunidade, "sorte" ou coisa que o valha. Não é nada disso. Trata-se do resultado de esforços persistentes em vidas passadas, envolvendo, quem sabe, até muito sofrimento.

A esse respeito, Max Heindel diz-nos o seguinte, no Conceito Rosacruz do Cosmos: "O que somos, o que temos, todas as boas qualidades, são o resultado das próprias ações passadas. O que agora nos falta, física, moral ou mentalmente, pode ser nosso no futuro".

"Certamente, criamos agora as condições das futuras vidas, pelo que, em vez de lamentarmos a falta desta ou daquela faculdade desejada, empreguemos os meios necessários para adquiri-la".

"Se uma criança, sem esforço aparente, com toda facilidade toca um instrumento musical, e outra toca com dificuldade, apesar de persistente esforço, isso demonstra, simplesmente, que a primeira esforçou-se em alguma vida anterior e adquiriu eficiência na execução, enquanto que a outra, começando agora nesta existência, deve esforçar-se muito mais. Mas, se persistir, poderá na presente vida tornar-se superior à primeira, a menos que esta continue exercitando-se e aperfeiçoando-se".

"O gênio é a característica de toda alma avançada que, por meio de incansável trabalho em vidas anteriores, desenvolveu-se em algum direito muito mais do que o termo médio da raça".

Ninguém logra êxito em algum empreendimento, unicamente e exclusivamente aguardando oportunidades, senão aproveitando e dinamizando seu próprio potencial. O triunfo, embora se manifeste como algo exterior, deve, primeiramente, encontrar um alicerce interior. Os vitoriosos mantém uma predisposição interna para o êxito.

Recentemente, uma estudante Rosacruz, Probacionista, nos narrou a epopeia de um jovem, parente seu. Esse moço, portador de retinoblastoma bilateral, ficou cego aos dois anos e dois meses de idade. Com seis anos e meio passou a frequentar uma classe de alfabetização em braile. Após dez aulas já lia bem. Mais tarde foi matriculado em um colégio, sendo o primeiro e único cego a frequentá-lo. Comparecia normalmente as aulas, estando sempre entre os primeiros alunos. No ano passado terminou o 3º ano do 2º ciclo. Seu relacionamento com os professores e colegas sempre foi a melhor possível. Tomava parte em festas, excursões, aprendeu a andar a cavalo, a escalar montanhas, dentro de um entusiasmo e convivência social admirável. Cursou inglês na União Cultural Brasil Estados Unidos, posicionando-se sempre como o primeiro aluno.

Recentemente prestou vestibular em cinco Faculdades, obtendo aprovação em todas. Decidiu-se pela Poli. É outro caso de destino maduro, sem dúvida. Contudo, de esforço em esforço nossa jovem vem colecionando êxitos. Há exemplo melhor do que este?

Ninguém se deixe abater pelas dificuldades. Tudo e admissível, menos o desânimo. O único fracasso é deixar de lutar.

(Revista 'Serviço Rosacruz' – 03/79 – Fraternidade Rosacruz – SP)