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Aperfeiçoamento: as tarefas que Deus nos dá cada dia como oportunidade

Aperfeiçoamento: as tarefas que Deus nos dá cada dia como oportunidade

O aperfeiçoamento do ser humano é algo sagrado que se ressente à profanação da palavra, porque deseja ser realizado no silêncio do próprio coração do indivíduo. O aperfeiçoamento não é algo que se possa receber de graça, e tampouco dar a outrem, pois, é uma realidade própria a cada um de nós. O aperfeiçoamento é um acontecimento íntimo que merece ser guardado na reserva das atividades humanas, como base propulsora de um trabalho cada vez maior. O aperfeiçoamento de cada um de nós tem para cada um, também, o seu jogo particular de ação, a sua forma própria de projeção, a sua atividade característica. Assim, o que um descobre no seu caminho, nem sempre será oportuno para seu irmão. Embora o objetivo seja o mesmo numa escola de aperfeiçoamento, cada um só pode seguir a sua linha de orientação interna e os reclamos de sua própria natureza íntima. Por isso o valor real do progresso de cada pessoa, só a ela se expressa com real intensidade, só a ela se expressa com interesse máximo e com o máximo aproveitamento que deve ter.

"Seleções do Readers Digest" publicou há algum tempo, uma frase, que, apesar do seu aspecto humorístico, encerra uma grande lição: "De nada nos adianta falarmos aos outros a respeito de nossos filhos. Ou eles têm filhos ou não têm". O mesmo ensinamento se ajusta aos nossos defeitos e virtudes, que são os filhos de nossa alma. Os filhos que recebemos pela carne procuramos educar o melhor possível, sentindo-nos consternados quando erram, e regozijando-nos com as suas vitórias. Todos os pais normais sentem o mesmo pelos seus filhos, de sorte que, as gracinhas dos filhos alheios podem distrair-nos por um momento, porém, jamais hão de ter, para nós, o valor que costumam ter para os pais da criança. O mesmo acontece no que se refere aos outros em relação aos nossos filhos. E isso quando não chega a despertar inveja em pobres corações mesquinhos que, dando-se o direito de analisar, veem na alegria de uma mãe ou de um pai "coruja", apenas sentimentos de vaidade e de orgulho, o que em parte não deixa de ser verdade; embora as apreciações paternais sejam revestidas de sincero amor, não deixa de ser um amor egoísta. Por isso, encarando o fato com toda a franqueza, observamos que, ao revelar fracassos ou virtudes de nossos filhos, podemos estar dando oportunidade aos invejosos de nos condenarem ou até de se regozijarem com as nossas lutas familiares, ou ainda – o que é mais importante – podemos dar oportunidade a nós mesmos de nos tornarmos cega a nossa própria vaidade. Porque, em geral, ninguém – mesmo os menos favorecidos pela visão certa da verdade – ninguém nos joga, no rosto, coisas que de certa maneira não merecemos. O ditado é bem certo.

"Onde há fumaça, há sempre fogo". Algo muito parecido com esse processo dá-se com o aperfeiçoamento íntimo. Por isso chegamos à conclusão que viveremos melhor e mais certo se procurarmos viver sempre no meio termo da naturalidade, da objetividade. Assim, poderemos ver também nos defeitos dos outros, exemplos de atitudes que será útil evitarem; encarando com naturalidade o fato humano de existir aquele defeito.

O ser humano objetivo não é frio, é ponderado; não é indiferente, é consciencioso. Ele sabe que a naturalidade é uma força que vem de dentro de si mesmo, resultante de seu próprio equilíbrio de ideias, de pensamentos, de aspirações, de seu desejo ativo de compreender a vida, a humanidade e a si mesmo. Ele sabe que já não há razão para perturbar-se com suas próprias deficiências; não encontra mais razão para julgar-se o último dos seres humanos. Ele sabe que suas vitórias não são suas, mas fazem parte da Criação, da Evolução do Todo. Sente-se tornando parte no mundo, fazendo parte da criação, e respira o ozônio da natureza, cada manhã com real prazer.

Pede perdão a Deus pelo que não pode realizar a contento da Evolução, e agradece as oportunidades que teve de poder ser bom. Respira a energia de Deus toda a manhã, e procura viver em Deus, pisando seguramente a terra firme. Tropeça, cai, levanta, prossegue, sabendo que pode cair outra vez, e procurando sempre estar cada vez mais preparado para as quedas.

Sabe que não existe um fim previsto para o seu aperfeiçoamento de cada dia, não existe uma determinação rigorosa previamente estipulada, pois cada coisa se realiza uma após outra, como um eterno fluir, e que somente dele depende aproveitar as suas oportunidades.

Por isso já não faz planos, não promete nada a si mesmo. Apenas põe a sua vontade, cada manhã, na vontade de Deus, procurando restaurar as energias gastas com oportunidades perdidas, no fluxo da harmonia divina que a tudo interpenetra. Observa que viver é um eterno fluir, e que a vigilância de cada dia, em pouco lhe dará como prêmio a conquista permanente, incorporando-se no seu todo como realização. Ele também sofre, mas sofre não por si mesmo, não pelo que os outros lhe possam fazer em ofensas e traições, mas sofre pelo que aquela ofensa encerra em desarmonia no Todo.

Sofre pelo Todo e não por si mesmo, porque sua maneira objetiva de ver as coisas, já não comporta apreciações subjetivas do sofrimento. E, quando seus olhos já podem observar esse panorama da vida e das criaturas, mais fácil se lhe aparece o caminho, e pode sentir, em tudo, a simplicidade do mundo de Deus, porém, não lhe escapa também a responsabilidade, quase dolorosa, de si mesmo para com os outros. Porque então, ele já não pensa só em si mesmo, nas suas coisas materiais ou espirituais, mas sente também necessidade de pensar nas coisas dos outros, de tornar a vida de cada um que com ele priva, melhor, mais fácil e mais digna. E isso tudo ele realiza sem planejamento, objetivamente, pondo mesmo de lado suas próprias lutas, como acontecimentos naturais da própria Vida. Esse ser humano objetivo já vive realmente em cada um de nós, e se mantivermos uma linha de conduta baseada em elevados ideais, se nos esforçamos numa autodisciplina rigorosa em cada dia que passa, perceberemos que esse ser humano objetivo vai se firmando em cada um dos nossos esforços, ajudando-nos a nos tornarmos cada dia mais fortes, até ajustar-se a nós como uma conquista humanizada. E essa conquista, começamos a notar mais viva quando cada esforço realizado vai deixando de ser esforço, transformando-se em até natural, e a vigilância permanente passe a transmutar-se num fluir de vida, num acionar natural do fluxo divino em nossas realizações e empreendimentos.

Por isso, lutemos pela nossa libertação na objetividade, procurando realizar nossas tarefas subjetivas com veneração à verdade e ao conhecimento, tarefas que Deus nos dá cada dia como oportunidade de realizarmos o Serviço na obra da Evolução.

"Que as Rosas Floresçam em vossa cruz"

(Revista Serviço Rosacruz – 03/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)