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Almas Livres: é chegada a hora de se agir por si mesmo, guiado somente pelo seu Cristo Interno

Almas Livres: é chegada a hora de se agir por si mesmo, guiado somente pelo seu Cristo Interno 

Um indivíduo quando se predispõe a estudar o Espiritualismo, já desenvolveu a sua consciência ao ponto de, pelo livre arbítrio, escolher um rumo para suas ideias, portanto, para o seu modo de pensar e agir.

Nesse ponto de transição, em que a consciência insatisfeita com o que aprendeu até ali, necessita de esclarecimentos mais amplos, ele entra num mar de dúvidas porque aquilo que já aprendeu ficou gravado atrapalhando o novo aprendizado até que, depois, por si mesmo, ele perceba a lógica nas novas lições e acomode nelas a corrente de suas ideias.

Acontece que, desde séculos passados, o ambiente religioso é o mesmo nestes lados ocidentais. Durante anos e anos duas religiões que não se unem, mas graças a Deus não se perseguem mais, vem prevalecendo na Europa e Américas, sujeitando a sociedade e embaraçando a expansão de ideias livres, ideias individuais.

Dessa maneira o indivíduo que chega ao ponto de libertar a sua Mente e conduzi-la pelo seu livre arbítrio, fica receoso como um pássaro que, engaiolado por muito tempo, no momento de sua liberdade, tem medo do espaço infinito. Quando vê aberta a portinha da gaiola, não tem coragem de arriscar um voo.

O hábito é uma segunda natureza e milhares e milhares de indivíduos vêm se habituando, desde criança, no ambiente familiar e ambiente geral de uma só ordem de ideias, até que sua Mente desenvolvida em outros assuntos, por força das necessidades da vida, chega a um ponto de curiosidade e descontentamento e se põe a procurar novas diretrizes, novos horizontes. Chega a hora, então, de procurar outras religiões, outras filosofias, de ler livros, até ali desconhecidos, de procurar lugares de ensinamentos até então ignorados, e considerados absurdos, mudar de pontos de vista, de adquirir novos conhecimentos.

Nessa altura, muitas pessoas temerosas de abandonar tradições, de mudar de corrente, sempre igual de ideias que influiu durante tantos anos na própria vida, compreendendo ao mesmo tempo, que essas ideias já não satisfazem mais, vacila tanto para dar novo rumo a sua mentalidade que acabam estacionando no seu modo de pensar, sem concordar plenamente com a que já aprendeu e sem vontade de aprender novas razões. Quantas pessoas deixam de progredir na vida, moral ou material, pela força do hábito.

Essa preguiça de natureza mental deve ser afastada desde logo, porque geralmente ela dura sempre e muitas vezes, quando chega a passar por efeito de um impulso, provocada pela experiência, pelo sofrimento, já se perdeu muito tempo, ou mesmo o melhor do tempo.

É natural, pois, que quando se encontre num estado de transição de ideias, mormente se tratando de questões do espírito, se esbarre com muita dúvida; porém é necessária afastá-la desde logo e para se conseguir isso é preciso pesquisar, examinar.

No caso do espiritualismo, é preciso verificar se as lições aprendidas, ou melhor, se as lições que se está aprendendo, são enquadradas na realidade da vida de todos os dias, e se podem ser observadas em você mesmo ou nos outros. Para isso é preciso pensar, procurar dentro do próprio pensamento fatos ou coisas que se relacionem com o que se está aprendendo. É preciso usar a memória, recorrer a lembranças e também observar nos fatos presentes, a relação entre a vida real e a espiritualidade.

O espiritualismo não é mais nada que a própria vida do ser humano, portanto, da nossa própria vida estudada na sua essência, nas suas bases fundamentais, na sua evolução e sua finalidade.

Ora, estudando a nossa própria consciência nos seus foros mais íntimos, e estudando, ao mesmo tempo, os acontecimentos da vida exterior, que se relacionam particularmente conosco de modo direto ou indireto, dando-nos pesares ou prazeres, alegrias ou tristezas, verificamos que tudo o que nos aconteceu e nos acontece está em harmonia com a nossa natureza particular, com a nossa capacidade, com a nosso entendimento, com o nosso grau de inteligência; por isso mesmo que se diz que Deus dá o frio conforme a roupa.

Verificaremos também que se os acontecimentos da nossa vida são diferentes dos acontecimentos das vidas dos outros, muito embora as situações sociais, financeiras, condições de saúde, de família, etc., sejam equivalentes, é por que a nossa natureza íntima, também é diferente, porque os nossos mundos internos tem o seu feitio e o seu desenvolvimento particulares, que não encontramos exatamente iguais em mais ninguém. É por isso que muitas pessoas, em ocasiões de raiva, de desespero, mesmo de coragem, de sacrifício, convencida de sua natureza exclama: "eu sou assim". Está certo! Cada um é assim do seu modo peculiar e não muda, senão por força da evolução espiritual. O mundo exterior repete continuamente a mesma série de cenas, as mesmas histórias, os mesmos fatos. O nosso Espírito é que, conservando o seu feitio fundamental, as suas linhas características, vai modificando a sua expressão por efeito do desenvolvimento que vai realizando. Quando recordamos certas épocas do nosso passado, certos ambientes, lugares e fatos, sentimos saudades de tudo o que se ligava a esses fatos, a paisagem, o céu, a rua, as pessoas – a verdade nos faz saudades, não propriamente essas coisas e sim o nosso estado interno desse tempo. Sentimos saudades de nós mesmos, de nossa alma mais animada, de nossas emoções mais leves, ligeiras, de nossos pensamentos cheios de entusiasmo e esperanças.

O céu não mudou. Por toda a parte há, como antes, paisagens encantadoras, variadas, objetos interessantes, pessoas agradáveis, moda bonita, etc. Nós, por efeito de nossas experiências, mudamos os sentimentos e a mentalidade, e por isso mesmo olhamos as coisas e os fatos por outro prisma. O nosso Espírito arredou alguns dos véus que o encobrem e enxergamos tudo com mais realidade, mais clareza.

Do mesmo modo recordamos com mais realismo as nossas tolices passadas, erros de toda a espécie, disparates e até dureza de coração e ficamos admirados de termos praticado tais atos. Isso vem mostrar que o nosso Espírito vai clareando aos poucos e continuamente, ampliando a nossa mentalidade, apurando os nossos sentimentos e por isso mesmo é que nossa memória traz à tona, muitas vezes, atos que praticamos, bobagens, até sem importância e que por nada neste mundo seríamos capazes de praticar de novo, porque a nossa consciência não mais aceita. Será porque de lá para cá, cultuamos a nossa inteligência, lemos muito, aprendemos mais coisas? Em parte sim.

Digo em parte apenas, porque muitas pessoas há de cultura intelectual comprovada, capaz de resolver grandes e graves problemas financeiros e políticos, questões internacionais importantíssimas, técnicos aperfeiçoados, magistrados, etc., que sabendo tanta coisa são fechados no orgulho, no egoísmo, na vaidade, que vivem para si somente, ignorando o resto da coletividade formada, entretanto, por seus semelhantes. Torno a dizer que o espiritualismo, é o estudo da nossa própria vida através do desenvolvimento dos nossos mundos internos. Por meio desse desenvolvimento percebemos que temos aprendido já muita coisa; que já conseguimos abrandar um pouco o coração; que ganhamos caminho, e que fomos muito mais atrasados. Já cometemos uma infinidade de erros mais graves dos que cometemos hoje e devemos seguir adiante, quer queiramos ou não.

Devemos desenvolver infinitamente o nosso aprendizado, visto que se estamos adiantados, à vista do estado espiritual em que já estivemos, estamos atrasados, à vista do grau de adiantamento a que temos de chegar.
O nosso aprendizado não é fácil, no ponto de desenvolvimento em que estamos, porque ele depende em boa parte do domínio das nossas emoções, o que quer dizer do cultivo dos nossos sentimentos, o que depende de muita força de vontade. A nossa luta de todos os dias está empenhada com uma coletividade dos mais variados graus de adiantamento espiritual, portanto, estamos, a cada instante, em choque com forças exteriores.

Essas forças exteriores estão, por sua vez, em harmonia com as Leis de Causa e Efeito e de Consequência, portanto, é dentro dela mesmo que temos de agir, para vencer. Para agir com pessoas de todos os graus de adiantamento, evitando o mais possível os choques, é preciso que se tenha seriedade de espírito e isso só se consegue com conhecimento e amor aos semelhantes, sejam eles de qualquer estágio de aprendizado.

Quando se chega a compreender que, cada um só pode dar aquilo que tem, e quanto menos tem para dar mais infeliz ele é, mais caminho tem de andar, de modo que, meus amigos, as ideias de vingança, o desejo de desforra são provas de falta de conhecimento, de pouco ou nenhum raciocínio. Somos auxiliares mútuos no cumprimento da Lei da Causa e Efeito e de Consequência e conforme as nossas qualidades, somos portadores de alegrias ou de tristezas aos nossos semelhantes.

Essas questões e todas as outras que se relacionam diretamente com o cultivo dos sentimentos, com o desenvolvimento da consciência, com o aperfeiçoamento do caráter fazem parte integrante do aprendizado espiritual e o melhor exercício que se pode fazer é a prática das boas ações.

O domínio próprio exercitado diretamente, só pelo esforço da vontade naturalmente tem os melhores resultados, porém, não está ao alcance de todos, porque é muito difícil conter-se o Corpo de Desejos. Há outro exercício mais brando, por isso mesmo mais demorado que chega também a um resultado satisfatório. É o trabalho de se procurar, conscientemente, em todos os fatos, coisas ou pessoas que nos desagradam, o seu lado bom, apreciável, a virtude que existe sempre e que muitas vezes, se oculta atrás de uma aparência má ou feia.

Sempre que fazendo isso conseguimos vencer uma aversão, estamos educando as nossas emoções.
Sempre que, ao julgarmos, dermo-nos ao trabalho de procurarmos a causa que o motivou, estaremos exercitando o raciocínio, portanto o abrandamento das emoções. Esses trabalhos repetidos apresentam geralmente resultados positivos. Há estudantes que, com o desejo de adiantar depressa se propõem a exercitar a domínio próprio, por meios extremados, geralmente acima de suas forças, fora de suas capacidades, chegando a pouco ou nenhum resultado, porque ou se cansam e abandonam o exercício na metade, ou se aniquilam prejudicando a saúde. O domínio próprio tem de ser praticado dentro do princípio da Relatividade, exercitar gradativamente e no seu meio termo. Devagar é que se chega ao longe.

Quando se está subindo uma escada para se chegar ao cimo, seguramente, tem-se de prestar atenção em cada degrau que se está pisando, para nele não falsear o passo, nem pisar muito firme, com risco de torcer o pé.

Não adianta a preocupação antecipada com o que está lá em cima, no patamar, porque só chegando lá é que se pode compreender, e nem adianta também saltar degrau, porque, então, não se fica conhecendo bem a escada, e nela pode haver coisas de utilidade que venham a fazer falta mais tarde. O trabalho de examinar o que se está fazendo é de grande proveito e utilidade no presente e para o futuro; isso em qualquer exercício. Nos estudos espiritualistas, esse cuidado é indispensável por se tratar de questões de ordem superior, que determinam o nosso progresso em linhas mais retas ou explicando melhor, de modo mais direto.

Uma vez que se queira dar às ideias um rumo seguro, que se deseje dar à Mente mais largueza e mais claridade é justo que se empregue atenção em tudo o que diz respeito às lições que se vai aprendendo, que se examinem com a própria consciência os trabalhos indicados.

Os ensinos Rosacruzes têm, como uma das finalidades mais em vista, levar o estudante a libertar as suas ideias a ponto de resolver por si só, com o auxilio único de sua própria consciência, todos os problemas de sua vida. Ideias livres não quer dizer anarquismo, quando são orientadas no espiritualismo.

Todo o estudante esotérico sabe que a verdadeira liberdade é a obediência às Leis e o exato cumprimento de todos os deveres. Que a nossa consciência só pode se desenvolver pelo conhecimento dessas coisas e que entre todos os nossos deveres o mais elevado é a estima, o respeito espontâneo, solícito aos direitos dos nossos semelhantes. É o reconhecimento da semelhança estabelecida no fundo de nossa natureza, pelo princípio que é o mesmo para todos.

O medo de pensar e agir livremente pode desaparecer, uma vez que o indivíduo conheça o verdadeiro conceito da liberdade, que compreenda que o direito é um resultado do dever cumprido, portanto, quem cumpre, voluntariamente, seus deveres morais, materiais e espirituais está agindo com liberdade e segurança e está se aproximando da Espiritualidade, e só consegue se espiritualizar em verdade, quem compreender este axioma de Elifas Levy: "Há apenas um único poder na terra como no Céu e este poder é o do Bem".

Ora se a verdadeira espiritualidade é a que se apoia inteiramente no Bem, por que duvidar e vacilar, quando a consciência inquieta, insatisfeita reclama diretrizes mais claras, mais lógicas, na corrente das ideias? Quando imperiosa pede Razão? Por que se demorar na decisão? Sujeição do ambiente ou da força do hábito? A nossa consciência é a iluminadora de nossas ações e quando ela chega a encaminhar o indivíduo para os estudos espiritualistas, é porque é chegado o momento dele entrar para o caminho mais curto de sua evolução. É chegada a hora dele agir por si mesmo, guiado somente pelo seu Cristo Interno.

(Revista Serviço Rosacruz – 12/64 – Fraternidade Rosacruz – SP)