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O Plano Divino

O Plano Divino

 

Por trás das cenas do drama da vida, encontra-se o Plano de Deus. O Todo, tão grandioso e aparentemente complexo, e, não obstante, perfeito e coletivamente ajustado, que conhecemos como universo visível, com unidade determinada — mundos que giram, cometas céleres e o tempo com medidas de frações de segundos — denota a Mente e o trabalho de um Supremo Projetista.

Toda a criação, desde os mundos estelares até os vermes da Terra, deixa marcas nas areias do tempo e revela um plano e um propósito divinos. Não devemos pensar, por conseguinte, que o Criador possa ser indiferente ao destino do ser humano, que é sua criação mais essencial. Toda coisa vivente é parte do grande mosaico da vida e contribui a seu desenho; todo ser humano existe com um propósito definido e tem um destino cósmico a cumprir, ainda que este não se veja claramente, e nenhuma vida humana pode chegar a sua expressão completa sem realizar o Plano Divino que lhe corresponde.

A maioria dos seres humanos, ignorando a realidade do Plano de Deus, no que concerne as suas vidas, anda às cegas nos aparentes corredores escuros da existência, confundida em busca da Luz e da Verdade; não tem percepção do caminho, nem do método a seguir, cujo valor desconhece, ocorrendo-lhe apenas a pergunta: como é possível conceber um Plano de Deus para os seres humanos, com as horríveis condições prevalecentes na vida, que parecem refutar a própria existência de Deus? E aqui se tem a impressão de que somente fará eco o antigo grito dos pagãos — <Os cristãos sabem que as leis de Deus são boas, perfeitas e verdadeiras; que Ele não se pode contradizer, nem anular Sua criação. As condições que parecem ser incompatíveis com seu amor, justiça e misericórdia, não são decretos divinos, e sim más criações humanas, resultantes da violação de leis naturais e espirituais. O bem e o mal existem no mundo por causa do ser humano, pois Deus construiu um Plano Divino para que todo ser humano vivesse vitoriosamente na Terra; mostrou-lhe o Plano Divino e suas leis, e lhe proporcionou, como agente livre, o direito de escolher. Deus não se interpõe no direito criador do ser humano, porque esse necessita imprimir sua individualidade, mas, quando o ser humano abusa de sua liberdade e pratica o mal, em vez do bem, recolhe o resultado do que semeou, por intermédio da imutável Lei de Consequência.

Os hospitais, os presídios e os asilos estão repletos de pessoas que violaram as leis naturais e humanas, em detrimento de seus corpos físicos, e aqueles que faltam as leis espirituais, recolhem, ainda, colheita muito mais amarga por sua audácia.

As catástrofes, tais como terremotos, furacões, inundações, secas etc., devem-se às forças ocultas na natureza, que devolvem ao ser humano as consequências de sua própria criação, por não se ajustar ao Plano Divino.

Um fato estimulante na existência humana é que cada condição destruidora contém valores positivos, e que o bem, embora por vezes encoberto, sempre existe, se se sabe buscá-lo e aproveitá-lo. Por exemplo, o sofrimento físico limpa os poros do ser, livrando-o das impurezas, e muitas pessoas devem ao sofrimento o crescimento anímico que alongam. A própria Terra deve rasgar-se quando o trabalho destrutivo dos terremotos sepulta os bosques. Desse sofrimento, produzido pelo mal, extrai-se um bem: o carvão mineral. Os bosques de antanho morreram, dessa morte, porém, tira-se de novo a vida indestrutível que estava no Plano Divino de Deus.

A inteligência foi dada ao ser humano como agente na lei de Deus; entretanto, seu mau uso, originou o mal sobre a Terra.

Mas, o Plano de Deus estava geometrizado para que o ser humano não deixasse de cumprir seu destino cósmico.

De novo as Hostes Celestiais impulsionaram as criaturas de Deus; novamente entraram em ação e grandes transformações realizaram. Utilizaram-se da necessidade do cataclismo que fez desaparecer a Atlântida, sacrificaram milhões e milhões de vidas animais e vegetais, que, mortos e em estado de decomposição, formaram nas entranhas da Terra um novo elemento. Porque prevista estava no Plano de Deus esta necessidade, para dar vida à manifestação de progresso da inteligência do ser humano, que mais tarde se desenvolveria com suas novas invenções. Previsto, também, estava no Plano Cósmico de Deus, que o ser humano viria a precisar de algo que só a Terra lhe poderia proporcionar, com a decomposição desses milhões de animais sacrificados pelas erupções vulcânicas e sepultados em massa, sob a capa de lava que os endureceu e cobriu. Suas lentas transformações, através das idades, deram por resultado a formação do petróleo. De modo que a destruição de criações antigas construiu o fundamento de outras novas, isto é, uma semelhança do que acontece presentemente.

As guerras destroem velhas civilizações, com seus costumes e convencionalismos, a fim de que outras melhores surjam: os velhos sistemas de classes estão se abolindo e a compreensão entre os seres humanos aproximar-se-á. E, assim, sempre vem um novo nascimento, uma nova vida, uma nova liberdade para todos, porque, finalmente, o bem triunfa sobre o mal.

Esse é o Plano de Deus para a humanidade e nele encontraremos incentivo para suportar as amargas, e por vezes trágicas, experiências da vida mortal. Perguntar-nos-emos: como poderemos certificar-nos do Plano de Deus para nossas vidas? Poderemos por meio da unificação de nós mesmos com Ele; entregando-nos a Ele; orando e cooperando, começaremos por submeter nossa vontade e nosso plano de vida a Vontade de Deus e a Seu Plano, para que se realize Seu divino propósito em nós, para nós, e por nosso meio, sem interferência. Procedendo assim, nossa vida estará regulada pela vida de Deus! Desse modo obteremos o cumprimento mais elevado e feliz para nossas necessidades e desejos, e devemos ter sempre em grande consideração que a purificação do eu é um processo muito doloroso, porém emancipa a alma.

Muitos seres temem investigar sobre o Plano de Deus em suas vidas, por receio de que isso represente um sacrifício e um desprendimento que os afastará do meio ambiente, privando-os das suas posições materiais e alterando o curso de suas vidas. Esse temor é inspirado pelo relato do jovem rico, que possuía tudo o que a Terra poderia oferecer, mas o que não pudera fora ir ao encontro de si mesmo. Quando ele perguntou ao Senhor o que devia fazer para entrar no reino dos Céus, Cristo respondeu: "vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue- me" (Mt 19:21). O jovem rico, porém, não era suficientemente espiritual para fazer o que Cristo lhe ordenava, de maneira que se afastou e voltou a sua vida anterior.

De vez em quando o Plano de Deus desvia-nos de nossos propósitos, encaminhando-nos para onde recolheremos maior número de frutos maduros, para rápido progresso em nossa gloriosa evolução. Depois, deveremos esperar e, por meio da oração e do silêncio meditativo, ficar na escuta da voz interna que nos guia, quando Ele nos revela o que quer que saibamos e façamos. Enquanto esperamos humildemente, na expectativa da revelação de Deus, porque submetemos a nossa vontade a Sua vontade, no silêncio da nossa meditação, Ele nos revelará o trabalho que temos a realizar. Fazendo nós a Sua vontade neste plano terrenal, teremos a glória de crescer em graça, sabedoria, fortaleza e vigor espiritual. Devemos obedecer sem objetar e, assim, estaremos mais capacitados para verificar nosso trabalho no Plano de Deus, para que vivamos vitoriosamente. Assim permaneceremos tranquilos e serenos em nós mesmos — uma realidade na presença divina — e Deus poderá indicar-nos o caminho a seguir até Ele, muito mais claramente, porque escutaremos pacientes e com fé; teremos sempre o guia interno, que se revelará a todo investigador sincero.

Deus mostra, mas o ser humano deve agir, deve cooperar com a inspiração divina, se é que esperamos obter resultados; Deus trabalha por meio de canais humanos para consumar Sua Divina Vontade e Propósitos em benefício da humanidade, porém esses canais estão obstruídos pelo egoísmo, e por nossa cegueira e surdez para obedecer a Sua inspiração. Se colaboramos com Ele em desejo, vontade e esforço, Deus trabalhará em nós, para nós, e por nosso meio para completar nosso plano de vida, de forma harmoniosa e satisfatória. Essa colaboração não se frustra, nem reconhece o fracasso pessoal quando prestamos nossas contas; é uma complacência, uma união, uma absorção de nossa vontade finita com a Vontade lnfinita, para melhores e mais elevados resultados em nossas vidas terrenas. Por meio delas nos capacitamos para viver existências de utilidade e serviço, cumprindo nosso destino cósmico. Compreendendo o Plano de Deus, Santo Agostinho, sublimado, exclamava em um grito de admiração: "nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso" (Capítulo I – Louvor e Invocação - Confissões – Santo Agostinho).

 

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de março/72)