cabeçalho4.fw

Um Coração Sábio

 

Um Coração Sábio

Suponhamos que Nosso Senhor nos aparecesse em sonho, tal como o fez com Salomão e nos fizesse a mesma pergunta: “Pede-me o que queres que eu te dê?” (III Reis, 3,5). Qual seria a nossa resposta, a resposta de uma pessoa comum, a tão vil pergunta? Responderia com o mesmo desinteresse com que o fez Salomão?

Em sonhos aos vinte anos, o jovem Salomão foi convidado por Jeová (o Espírito Santo) para que lhe dissesse o que é que mais desejava para governar o seu povo. A sua resposta foi: “E agora, ó Senhor Deus, tu me fizeste reinar a mim teu servo em lugar de Davi meu pai: mas eu sou um menino pequenino, e que não sei por onde hei de sair nem por onde hei de entrar. E o teu servo se acha no meio dum povo, que tu escolheste, de um povo infinito, que não pode contar-se nem reduzir-se a número pela multidão.Tu, pois, darás a teu servo um coração dócil, para poder julgar o teu povo, e discernir entre o bem e o mal: porque quem poderá julgar a este povo, a este teu povo tão vasto?Agradou, pois, ao Senhor esta oração, por ter Salomão pedido tal coisa. E O SENHOR DISSE A SALOMÃO: Pois que esta foi a petição que me fizeste, e não pediste para ti nem muitos dias, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas pediste-me para ti a sabedoria para discernires o que é justo:eis pois te fiz o que me pedistee te dei um coração tão cheio de sabedoria e de inteligência, que nenhum antes de ti te foi semelhante, nem se levantará tal depois de ti.Mas eu te dei também o que tu me não pediste: a saber, riquezas, e glória em tal grau, que não se achará um semelhante a ti entre os reis de todos os séculos passados”.

Fran Hartman, explica assim esta grande lição mística: “O trabalho intelectual, só por si, não pode ser a verdadeira felicidade da vida. A verdade infinita não pode ser captada pelo cérebro material. Aquele que procura alcançar a verdade somente pelo trabalho intelectual sem consultar o coração encontrará dificuldades incalculáveis. O coração é a sede da sabedoria e o cérebro é a sede do intelecto que raciocina e recebe a vida do coração. O coração e o cérebro devem trabalhar em concordância e de forma harmônica, para destruir o dragão da ignorância que permanece no umbral do templo”.

Tratemos de imaginar a humanidade no longínquo período do caminho da evolução, quando acabava de emergir da pesada e nebulosa atmosfera da Atlântida (Egito antigo). Veríamos um corpo animal maciço, sem cabeça, vivendo unicamente por meio dos sentidos, mas, em contato com os Seres Superiores, com os quais podia comunicar-se, em estado como o de sonho. Mas à medida que o cérebro principiou a desenvolver-se, foi perdendo gradualmente a consciência dos Seres Superiores. O ser humano adquiriu e desenvolveu o cérebro, mediante um sacrifício.

Não somente é necessário que o cérebro do ser humano seja organizado como veículo por meio do qual deve pensar como também se torna agora necessário que a porta do cérebro seja aberta e o poder do entendimento desenvolvido. O ser humano deve primeiramente aprender a pensar por meio da Mente inferior. Max Heindel escreveu em “A Teia do Destino” que a Mente foi-nos dada depois que o ser humano adquiriu um após outro, os Corpos Denso, Vital e de Desejos. O quarto veículo, a Mente, era o instrumento por meio do qual o Ego devia desenvolver os outros três Corpos até lhes fazer alcançar um desenvolvimento com o qual pudessem ser utilizados para elevar o ser humano no caminho da evolução. Este elo do intelecto não é presentemente mais do que uma nuvem informe, apenas digna do nome de veículo, mas que conecta os três veículos do ser humano com o espírito.

Esses quatros veículos são as ferramentas do espírito no Caminho da Evolução. O Espírito está fortemente restringido nas suas manifestações, devido a que o recém-nascido veículo mental, está subordinado ao poderoso Corpo de Desejos, que assume, geralmente, o domínio da personalidade.

Estamos muito longe de poder sequer suspender a evolução da Mente, acelerada vertiginosamente pelo atual sistema educativo e as possibilidades do desenvolvimento ulterior que pode alcançar. Quanto maior é o poder, tanto maior também é o perigo que tem o ser humano, de empregar mal a sua Mente. Se a astúcia da Mente se desenvolvesse antes que o coração e se estes dois órgãos deixassem de trabalhar harmonicamente, um com discernimento e o outro compassivamente, então o mundo teria muito que sofrer. Não é mais perigoso do que uma pessoa cujo intelecto se tenha desenvolvido ao excesso e que entre em contato com os seus semelhantes somente com a fria e penetrante mentalidade. Atualmente o ser humano corre o grave perigo de se desviar do caminho puramente espiritual, ao investigar o conhecimento unicamente pelas linhas mentais e pensando muito raras vezes, como poderia utilizar a sua Mente para o bem estar e felicidade da humanidade. Max Heindel chamou sempre a atenção dos estudantes sobre o ideal do desenvolvimento do coração, insistindo na necessidade de combinar harmonicamente os poderes do coração com os da Mente. Os estudantes devem ter presente que, em todas essas aquisições, deve existir sempre a compreensão do coração, tal como Salomão aconselha nos seus Provérbios, um coração que com a ajuda do intelecto eleve a humanidade para uma Fraternidade sã e amorosa, prelúdio da Fraternidade Universal.

Uma educação puramente mental, não pode produzir um coração sapiente; são necessárias, além disso, as múltiplas experiências vividas pelo espírito, vida após vida, no seu trabalho diário. O serviço amoroso e desinteressado no qual o intelecto e o coração marcham de acordo é a base dessas experiências, as quais se acumulam e arquivam no pequeno átomo-semente – verdadeiro armazém do espírito – que todos possuímos (N.R.: no ápice do) no ventrículo esquerdo do coração.

Os espíritos inquietos e descontentes que constantemente passam de um ensino a outro em busca de coisas novas e maravilhosas, mas que nunca aprofundam naquilo que estudam, nem vivem segundo os ensinos que recebem e, portanto, nada realizam, e que, no melhor dos casos, somente se contentam com a concentração e as pregações, pode assegurar-se que fracassam na sua missão, pois não despertaram o coração.

Salomão proclamou o poder da vida interna. O próprio nome de Salomão sugere imediatamente a busca íntima da mais elevada sabedoria espiritual. O Deus interno é a vida do coração, é a “nota-chave”. Salomão, pelo seu desinteresse a coisa materiais, contentou-se em pedir somente um coração sapiente, e por isso obteve de Jeová um grande reino, riqueza e sabedoria que lhe permitiu distinguir o bem e o mal. A pureza de coração e o poder da Mente devem trabalhar harmonicamente. O Mestre dos Mestres, CRISTO, nosso amado redentor, ensinou que nós devíamos nos tornar como crianças para poder ter acesso e penetrar na verdade. Quando a cabeça e o coração trabalham em perfeito entendimento, se completam e se transformam num só.

O sábio de coração compreensivo, que adquiriu um perfeito domínio sobre as suas emoções, cuja cabeça e coração vibram em uníssimo com a divina harmonia dos reinos invisíveis da natureza, gozará do privilégio de conhecer a verdade e a sua vida refletirá os princípios mais elevados.

Há muitos petulantes que pretendem ser controlados pelo seu intelecto, não admitindo nem crendo que as suas vaidades possam ser tão somente uma expressão emocional, e que, desde logo são incapazes de reconhecer. O ser verdadeiramente livre, não é controlado nem pelo seu intelecto nem por suas emoções. Ele é o próprio senhor, o único comandante de seu navio. Pelo poder da vontade e da razão, domina os seus pensamentos e sentimentos e assim, este ser humano, adquire a sabedoria.

O coração e o cérebro são instrumentos de valor inestimável, que Deus nos ofertou; dois instrumentos que o Espírito deveria já controlar. Desgraçadamente e com demasiada frequência são estes dois instrumentos que ainda governam o ser humano (sua parte inferior), pois que nele impera o egoísmo que causa desarmonia e atrozes sofrimentos.

Quando as faculdades superiores da alma são ativadas e a cabeça e o coração trabalham harmoniosamente, então, o ser humano inferior é transformado.

Um bom número de Grandes Seres deixou bem gravado a “marca de seus pés nas areias do tempo” e as suas vidas ofereceram incalculáveis benefícios à humanidade. Mas há um que se mantém no pináculo da grandeza; um, cujo precioso legado para a humanidade foi a Religião Cristã. Sua grandeza cresce sem cessar no espírito dos povos e depois de dois mil anos de adoração, a humanidade principia a compreender o que foi e é esse Espírito Excelso, que veio à Terra por poucos anos. O Seu Coração compreensivo deu ao mundo “O Sermão da Montanha”, um sermão tal, que nenhum ser humano poderá jamais pronunciar de novo.

Cristo-Jesus permanece supremo como UNO, de coração sapiente, que veio redimir a humanidade doente espiritualmente. A sua sublime figura está sempre presente ante os olhos do estudante Rosacruz. Os ensinos que nos foram legados pelo nosso querido Max Heindel, indicam-nos com clareza o caminho pelo qual o estudante pode, com o tempo, mediante sacrifícios e uma vida reta alcançar a força espiritual que lhe proporcionará a sabedoria expressa por Salomão e concedida por Jeová.

A consciência Crística que um dia alcançaremos por meio da Mente e do coração elevará o neófito até as alturas do conhecimento espiritual, no qual ele também será um dos eleitos de Deus, selecionado pelos Irmãos Maiores, por ter alcançado a consciência de Deus; pois, que não procurou riquezas, nem poder, nem conhecimentos, mas, unicamente, trabalhou infatigavelmente para alcançar a sapiência para ser útil a seu povo.

A verdadeira sabedoria e um coração compreensivo, como o que teve Salomão, não se podem adquirir senão “Vivendo a Vida” e utilizando cada experiência, na qual o coração e a cabeça marcham unidos, como pedra indicadora ao longo do caminho.

 (Revista Rosacruz – 07/59)