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A Páscoa Interna

A Páscoa Interna

Diz Max Heindel que os graus Iniciáticos menores não se realizam obrigatoriamente na ordem exposta pela Filosofia Rosacruz. Ao mesmo tempo, são experiências que devem ser vivenciadas em todos os graus, desde o ser humano comum. De fato, o Batismo ou despertar se efetiva grau a grau, em cada vislumbre, cada nova ideia, cada nova experiência, cada nova vivência emocional. É o nascer gradativo, que sucede ao morrer gradativo.

A tentação se dá todos os dias. Oportunidades pequenas, mas, expressivas, de autos- superação. Verdadeiro herói não é o que realiza grandes façanhas, com desprezo à vida e temeridade. Não. Verdadeiro herói é o que vence, todos os dias, pequenas falhas, num ritmo seguro, constante, rumo à meta.

A transfiguração ou renovação do ser, é decorrente da transformação. A cada falha superada e nova virtude conquistada, ocorre, em grau infinitesimal, uma correspondente eterização dos corpos.

Assim também com os passos correspondentes à última ceia e Lavapés; ao jardim da agonia; à estigmata; à crucifixão; à ressurreição e ascensão. A cada pequeno passo, distanciamo-nos do sentido humano e nos aproximamos do Eu real, para mais íntima comunhão com Ele. Com isto vamos experimentando solidão do incompreendido; o sofrimento da personalidade ao desligar-se do sentido humano. É um morrer "todos os dias", como disse Paulo, em graus correspondentes ao nosso nível de consciência; uma lenta crucifixão, que nos permite ressurgir aos poucos, numa expansão gradual de consciência. Espirais dentro de espirais, todos os graus Iniciáticos se realizam diariamente, nos mais variados níveis de evolução. Assim como nas matemáticas, o sentido de proporção, de quantidade, de unidade, se desenvolve desde as primeiras noções do curso primário e se vai aprofundando gradativamente até o curso superior e além desse - assim também com os diversos aspectos Iniciáticos: eles vão desabrochando incipientemente em graus pequeníssimos, que se ampliam na medida da evolução, até assumirem a proporção de grandes espirais nos níveis Iniciáticos propriamente ditos.

Ora, também a escalada evolutiva, em níveis comuns, se divide em duas etapas, como nos graus de iniciação menor:

a) - Levando o ser humano do estado humanamente mal ao humanamente bom;

b) - Do humanamente bom à iniciação.

A cena do calvário, olhada da "memória da natureza", apresenta muitos crucificados junto com Jesus. Mas a tradição cristã representou-a simbolicamente com três cruzes: a de Jesus (no meio); a do bom ladrão (à direita) e a do mau ladrão (à esquerda). Tendo em vista que a cruz representa as limitações, extraímos da cena do calvário um expressivo simbolismo: o mau ladrão representa o estado de consciência do humanamente mau, isto é, aquele que está preponderantemente sob a influência de sua natureza inferior e vive sob o aguilhão constante da lei de Causa e Efeito. É uma cruz imposta, que ele carrega com revolta, porque desejaria agir impunemente, sem restrições nem dores, na satisfação de seus impulsos. Um ser neste nível é ignorante das leis e, por isso, peca menos - mas a lei de consequência tem de agir mais fortemente sobre ele, para acordá-lo pela dor e reconduzi-lo à justeza. É um pobre estado de ignorância em que o indivíduo não compreende nem aceita as circunstâncias, atribuindo todos os seus problemas aos outros. Revolta-se com os que têm mais e vivem felizes. Inveja-os. Acha que todos têm obrigação de ajudá-lo. Está sempre com a mão na posição errada, vergonhosamente estendida, a pedir, em vez de colocá-la acima do ombro, para segurar e carregar a cruz das limitações que ele mesmo formou com seus desvios às leis da natureza. Foi este mal ladrão que xingou o Cristo, ironizando: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós" (Luc. 23:39). Para um tal estado, a finalidade do espiritualismo é a de isentar-nos das dores e cumular-nos de conforto.

Fora disso, que utilidade teria? Por isso, rouba-se a si mesmo a graça e prolonga o calvário.

O bom ladrão é o ser humanamente bom. Ou conhece as leis e as segue como o moço rico - ou tem consciência do justo. Assume a cruz de suas limitações espontaneamente, compreendendo que ele mesmo gera seu destino e, portanto, ele mesmo pode transformá-lo gradativamente para melhor. Conquistou, por mérito, uma boa Vida, desconforto e harmonia relativos e a conserva zelosamente como um fim. Aí é que ele se rouba também: as boas coisas não representam um fim, mas UM MEIO. "A quem mais for dado, mais lhe é exigido". Ele tem mais consciência e responde mais severamente perante à consciência por deter-se numa "boa Vida" como um fim, em vez de empenhar-se mais, a serviço do Eu verdadeiro e superior - já que tem mais para dar. Ele deve compreender: que "nada lhe pertence", senão que é mero canal consciente do Cristo interno, para verter ao mundo, os bens do espírito, a fim de colher os frutos d'alma, decorrentes do serviço prestado. Reserva para si o suficiente apenas e todo o mais põe nos "negócios do Senhor, para render". Como na parábola dos talentos, ninguém tem o direito de tornar deste plano físico ao espiritual, sem levar um acréscimo de capacidades. Nós, aspirantes à espiritualidade, somos um "bom ladrão". Humanamente bons, mas ladrões ainda, porque estamos roubando ao espírito a oportunidade de uma evolução maior. Não estamos fazendo tudo o que podemos. Receosos de perder o relativo conforto e harmonia conquistados, neles nos detemos como um fim. E isto se torna, para nós, uma gaiola de ouro, uma restrição. Seja de bambu, de arame ou de ouro, é sempre gaiola, é sempre uma prisão. Vivemos melhor, mas ainda limitados no humano. É preciso dar o segundo passo: de consagração a uma vida de serviço, amoroso e altruísta. Para estes, para nós enfim, é que o Cristo dirigiu seu apelo de discipulado:

a) "Toma a tua cruz e me segue"!

b) "Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e depois volta a me seguir"!

c) "Aquele que não deixar pai, mãe, irmãos, amigos..."

É a lição do despojamento da personalidade; de transferência do humano ao Cristo interno, sabendo que o "pão" só nos vem de cima, do céu do íntimo, do Divino em nós – e não dos recursos da personalidade, de sua esperteza, de sua astúcia, de suas manobras.

É mister assumir nossas limitações e. dispor-nos, decidida e perseverantemente a um nível gradativamente mais alto de consciência. Isto é tomar a cruz e dispor-se à regeneração e à libertação, nas pegadas de Cristo - o Eu verdadeiro e superior. É mister renunciar ao sentido humano de posse, sabendo que tudo pertence ao Divino interno e deve ser posto a serviço da evolução e não para exaltar a personalidade. Atribuir ao humano o que é do Divino interno, é ateísmo. Se não esvaziamos a personalidade e nem a colocamos em condições de receptividade, não podemos receber "o maná renovado" o "pão transubstancial de cada dia", que nos impulsione à evolução. Tal um copo vazio, de boca para cima, assim devemos permanecer em relação ao Cristo interno. Mas, para estar vazios, devemos renunciar ao velho ser, aos triunfos e fracassos de ontem, entregando diariamente ao nosso Melquisedeque os despojos de nosso diário lutar. Eis o sentido de ir, vender tudo o que temos e dar aos pobres. Os pobres são nossos "eu's" inferiores, aquelas vivências a quem devemos levar o evangelho e curar, numa regeneração constante. É mister, finalmente, transcender os laços de sangue, de raça e outras limitações convencionais, para que se estabeleça a "Família Universal de Cristo", o "único rebanho com um só Pastor", que pressupõe uma ligação mais profunda, como ensina o Oficio Devocional da Rosacruz: "o reconhecimento da unidade fundamental de cada um de nós com todos, a comunhão espiritual, é a realização de Deus".

"Para alcançarmos essa realização, esforcemo-nos, diariamente, por esquecer os defeitos de nossos irmãos e procuremos servir à Divina Essência neles oculta, o que constitui a base da fraternidade". Tal é o sentido de "deixar pai, mãe, irmãos. . .", não como convite para negligenciarmos nossos deveres filiais e fraternos, senão como desafio para superar as conveniências, fanatismos e preferências da personalidade.

A cruz do meio é a do Cristo - aquele nível em que trabalhamos para o levantamento da humanidade; em que, voluntariamente ajudamos o Cristo a carregar sua pesada missão. Já não é o natural assumir de nosso destino, senão o desejo de fazer mais ainda. Para tais indivíduos, bem mais raros, há um preparo especial que lhes permita chegar e transpor os portais da Iniciação.

A páscoa, em níveis comuns, começa no indivíduo humanamente bom.

Aprendemos, de Max Heindel, que todo trabalho Iniciático começa no corpo vital, o veículo dos hábitos, formados pela repetição. Isso nos leva a uma meditação e oportuno esclarecimento: devemos trabalhar pelo Corpo Vital ou vital, cuja chave é a repetição, para formar hábitos. É claro - hábitos bons, como disse Paulo: "Examinai de tudo e escolhei o melhor". "Tudo é lícito, mas nem tudo convém".

O que é o melhor? O que mais nos convém? - Só o nível individual de evolução é quem pode determinar, se bem que haja determinadas coisas que são comprovadamente boas a todos, tais como os exercícios recomendados no final de "O Conceito Rosacruz-do Cosmos", as verdades espirituais, etc.

Contudo, referindo-nos especificamente às pequenas coisas da vida, o discernimento individual há que determinar o que melhor lhe convém e buscar alcançá-lo; personalidade viciosa que procura justificar suas dificuldades, de atingir certas virtudes, dizendo: "estão acima de minhas forças... talvez mais tarde...".

Se vencemos essas manhas, vamos aos novos e melhores hábitos e os realizamos. E depois? Ficamos neles? É o que estamos testemunhando: há muitos estudantes velhos que se acomodaram na rotina e nela permanecem como se houvessem alcançado o Ideal. É como alguém que, detendo-se num degrau da escada, olha satisfeito para baixo, vê que subiu, regozija-se com sua "superioridade" e permanece ali. . . Não tira o pé do degrau para colocá-lo no de cima e, desse modo, jamais poderá atingir o topo.

É preciso olhar para cima e dispor-se à escalada gradativa e constante.

Cada um de nós é como um parêntesis na eternidade:

Vencemos uma parte da jornada, estamos num determinado grau de consciência mui individual (por causa da Epigênese) e devemos saber que ainda falta muito para chegar. Se nos dispomos a continuar firmemente, nosso parêntesis se desloca, deixando anteriores estados e alcançando novos- níveis. Isto acontece até mesmo na vida prática: o profissional que se acomoda e deixa de se aprimorar, de se atualizar com novos e melhores recursos, fica para trás e paga o seu desleixo. "Há homens ultrapassados, mas não ideias ultrapassadas".

Há sempre algo mais a conquistar; um modo melhor de fazer as coisas. Tudo é susceptível de aprimoramento.

Tudo! Mas o ser humano pode acomodar-se e cristalizar-se, porque a natureza não conhece paradas: ou avança e evolui, ou para e retrograda e se cristaliza.

A mensagem da páscoa é esse constante morrer para o velho ser seguido de um constante nascer para a novidade de espírito que nos acena alvissareira.

Se todo trabalho Iniciático começa pelo Corpo Vital - repitamos e adquiramos a disciplina dos exercícios e de uma vida mentalmente mais pura, emocionalmente mais nobre a amorosa, fisicamente mais saudável. Todavia, cuidado com a rotina! Estejamos vigilantes para que cada dia traga uma nova e melhor contribuição, pois os próprios exercícios são um desafio: eles vão desvelando maravilhas ao estudante sincero que se empenha diariamente e se vão tornando cada vez mais novos e profundos, na medida da prática renovada em Epigênese.

Com esta advertência, deixemos de ser o estudante de ontem e sejamos, hoje, algo melhor em tudo. Este é o morrer gradativo e racional. Esta é a PÁSCOA - com seu convite de crucificar o que está ultrapassado (por mais que o apego nos dificulte e implore), ressuscitando para algo maior e ascendendo um pouco mais na evolução.

Neste sentido é que lhes desejamos: "FELIZ PÁSCOA"!

(Revista 'Serviço Rosacruz' - 04/76 – Fraternidade Rosacruz – SP)