cabeçalho4.fw

A Responsabildade Espiritual e o Caminho Estreito

Responsabilidade espiritual e o caminho estreito

 

 

   Alguns vislumbres sobre as condições da vida superior são gradativamente sentidos por aqueles que percorrem a senda da preparação. Cada novo passo percorrido na realização espiritual revela maior preparação para assumir maiores responsabilidades espirituais. Do mesmo modo, conforme a percepção do aspirante se expande, maiores noções da necessidade de mudanças passam a ocorrer, para que seu modo de vida fique congruente a tais vislumbres.

   No entanto, a percepção de mudanças, infelizmente, não vem acompanhada das facilidades, sendo que tanto a personalidade (eu inferior) do aspirante quanto seu ambiente (círculo relacional, incluindo família e círculo social) podem não acompanhar o movimento da verdade que iniciou em seu coração. No âmbito da personalidade, é fácil perceber que pensamentos e impulsos indesejáveis não o abandonam. Pelo contrário, parecem nunca terem ganhado tanta força. Se não permanecer com a arma da persistência voltada para oração e trabalho, perceberá que facilmente sucumbirá. Já em relação ao seu ambiente, bem sabemos que é difícil caminhar contra as idéias aderidas pelas massas e que é muito mais difícil levar uma vida de bondade, inofensiva e de pureza do que uma que busca “olho por olho; dente por dente” e gratificação da natureza inferior. Mesmos os cristãos primitivos já sofreram devido ao seu novo modo de vida, e este sofrimento ainda é sentido nos dias atuais (apesar de atualmente não haver sofrimentos físicos e mortes devido a isso, como ocorria naquela época).

   A percepção e a consciência expandida significam maiores responsabilidades em lidar com as tormentas que o conhecimento da verdade exige. No evangelho de Lucas, podemos encontrar uma parábola que remete às responsabilidades aqui mencionadas: “Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa? Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. Porém, se aquele empregado pensar: ‘Meu patrão está demorando’, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”. (Lucas, 12: 42 – 48) 

   Possuir responsabilidades espirituais como as mencionadas na parábola, significa trabalhar com as Leis de Deus que governam a vida do aspirante e de todos aqueles que estão inseridos em seu círculo de ação imediata. Significa imitar o Cristo neste círculo. A cilada de toda essa questão está exatamente na permanência da inércia expressão física que o aspirante pode cair. Ou seja, apesar de serem bastante nobres todos esses sentimentos e conceitos, enquanto os mesmos são concebidos apenas no mundo das idéias, pouco efeito prático e de mudança no mundo é produzido. E a dificuldade em expressar tais elevados ideais de espiritualidade no cotidiano, está exatamente na percepção do peso que é assumir uma vida verdadeiramente cristã.

   Isso é o mesmo que dizer adeus à paz, à tranquilidade e ao descanso, tão almejados e desejados pela humanidade comum. Pelo contrário, quanto mais revelam-se verdades, menos paz, descanso, objetos e situações pessoais preencherão a caminhada do aspirante. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará.” (Lucas 9, 23-24).

   Essa responsabilidade inclui parar de profanar os recursos pessoais e alheios que temos a disposição e que são necessários para nosso desenvolvimento (incluindo nossos corpos, ambientes e pessoas com as quais estamos relacionados) e iniciar um movimento de trabalho incessante. “Felizes são os puros de coração, porque verão a Deus”. (Mateus 5, 8.). Isso significa que, quando uma pessoa não mais profana todos os recursos que possui e consagra uma vida de altruísmo, paralelamente um Corpo Luminoso (Corpo Alma) é criado, o qual é o traje necessário para que o casamento do Espírito com o Cristo ocorra. 

   Os vislumbres de verdade mostram que o aspirante é UM com TODOS e que não há separatividade. Isso quer dizer que o sofrimento dos outros é seu próprio sofrimento, que o sucesso dos outros também é seu próprio sucesso, e que tanto a vítima quanto o malfeitor constituem suas próprias fraquezas, pecados e ignorância. Ignorar todos esses fatos, como se não tivéssemos parte com os males que ameaçam o atraso do desenvolvimento espiritual humano é o mesmo que reforçar os pregos da cruz de Cristo, deixando-o cada vez mais preso a Terra.

   É importante ao aspirante iniciar a busca pelas barreiras invisíveis que o faz andar para trás e não alcançar novas etapas de realização. Por exemplo, cada vez que o aspirante se depara com a incongruência entre verdade e realidade, pode sofrer a tentação de sentir-se impotente. Acaba por ter pensamentos pessimistas do tipo: “não estou à altura da responsabilidade que assumi” ou “tudo isso é uma pura utopia” ou ainda, “há certos hábitos ou traços em minha personalidade que é inútil lutar para transmutá-los”. Em outras palavras, ele percebe que para tornar realidade os vislumbres de verdade que gradativamente sente, faz-se necessário renunciar toda uma atitude referencial condicionada (ou automática) de viver, que constitui sua identidade inferior, e passar a viver com responsabilidades pessoais e coletivas.

   Esse sofrimento, que envolve o estreito caminho da santidade e de consagração a uma vida de altruísmo, deveria servir de combustível para que o Aspirante encontre forças para transmutar suas pedras brutas (seus corpos impuros e não desenvolvidos) em pedras preciosas como o ouro, o rubi e o diamante. A senda da preparação nos guarda uma vida de sofrimento, renúncia e trabalho. Apesar disso, a sensação permanente de plenitude e certeza de estar no caminho não possui comparação a qualquer gozo mundano ou conceitos de felicidades materiais que o mundo ordinário oferece.

   “Quem não trabalha, não tem direito de comer”. Comer significa ter gozo ou parte com Cristo, o Pão da Vida. “ALEGRAI-VOS e REGOZIJAI-VOS, porque será GRANDE a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós” (Mateus 5, 12).

 Que as Rosas Floresçam em vossa Cruz.