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Servir a Divina Essência em cada um de Nós

Servir a Divina Essência em cada um de Nós

O lema “Servir à divina essência em cada um de nós” merece um estudo profundo para que seu expressivo conteúdo não fique limitado por uma análise e compreensão superficiais. Inicialmente devemos compreender o que é “divina essência”, pois, do contrário, não poderíamos servi-la convenientemente. As palavras “divina essência”, por si, revelam ser de caráter abstrato e subjetivo e só por esse meio poderá o espiritualista penetrar-lhe o sentido. Realmente, os processos comuns, intelectivos, não podem atingir os planos abstratos.

A frase “servir a divina essência” faz parte do ritual rosacruz. E julgamos conveniente, neste ponto, explicarmos o que é um ritual: é uma cerimônia introdutória e preparatória de um culto. Todos os cultos usam rituais, inclusive as Ordens Místicas. E por que é importante esta preparação? O ritual é um conjunto de palavras mui significativas, tanto para o celebrante como para os ouvintes, pois leva o VERBO, recriado por aquele, a estes. O Verbo assim pronunciado é transmitido ao íntimo do ouvinte e nele ressoa o valor vital do espírito da palavra, levando o estado de espírito de quem o escreveu, no momento em que se encontrava nos planos superiores (falamos de um verdadeiro ritual, como o da Rosacruz). Realmente, se revivemos, se relembramos, se recapitulamos, por exemplo, as orações de Cristo e de seus elevados Discípulos, experimentamos o mesmo estado em que se achavam, em sua exaltação, esses magníficos personagens; e de certo modo nos ligamos a eles.

Se dizemos: “Deus é Amor e quem vive em amor, vive em Deus e Deus nele”, acontece justamente o que descrevemos, isto é, pela repetição das mesmas palavras sentir-nos-emos, como o Autor, em união com Deus.

Esta forma de cerimônia, portanto, eleva os ouvintes preparados às alturas de quem exprimiu aquela inspiração; ao conhecimento cósmico donde deriva a Força Universal de Deus. Pois é a esse plano universal que nos guindamos ao pronunciar com alma, no ritual rosacruz, essa expressiva frase: “Servir à Divina Essência em cada um de nós”.

Mas, voltando ao exame da frase proposta, perguntemos: o que é “divina essência?”. O verdadeiro ocultista, afeito ao abstrato e deduções lógicas, conclui que a “divina essência” é parte do Espírito Universal, infinita como sua Origem, e que constitui nosso Ego. Vemos assim que o Ego, mesmo aparentemente isolado no indivíduo está intimamente ligado ao Espírito Universal, e este, poderoso na ilimitação de sua universalidade, confere à centelha que d'Ele emana a mesma ilimitação dentro do Universo. Do exposto deduzimos que, sendo essencialmente chispas infinitas de Deus, a Ele estamos vinculados, como também, inversamente, Deus está conosco. É uma verdade insofismável, pois nosso Ego se reflete, como aprendemos, por atributos microcósmicos do Uno, que constituem a triúna centelha do Ego: Espírito Divino (Pai), Espírito de Vida (Filho) e Espírito Humano (Espírito Santo).

Assim, as qualidades com que o Espírito Universal se exprime em nós, são: “Vontade” - “Amor” e “Sabedoria”.

Deus possui estes atributos e o Ego também os possui. Daqui concluímos que a “divina essência” em cada um de nós é a própria natureza divina.

Essas três qualidades abstratas ou atributos, Vontade, Amor e Sabedoria, fundem-se na essência Egóica, e por elas o Ego opera individualmente, exercendo sua capacidade epigenética, pois em nosso Ego reina o Poder de Deus, sujeitando-se a este o “eu” inferior (intelectualidade e desejos), buscando sua libertação dentro de Deus. A pouco e pouco o Ego sublima a inferioridade em superioridade, ou seja, em elevados sentimentos e verdadeira inteligência, passando a reconhecer-se individualmente, dentro do poder de Deus, perfeitamente identificado com o Pai.

Assim o ser humano fará a Vontade de Deus, conforme Cristo o explica ao dizer: NÃO SOU EU QUE FAÇO AS OBRAS, E SIM AQUELE QUE ME ENVIOU. Este fato mostra que a Vontade de Deus agia em Cristo, não sendo Ele, portanto, o autor das obras. Cristo, pela vontade que reinava em Si, dava livre acesso ao seu corpo, para que o Pai executasse as obras, segundo Sua Vontade, em perfeita correspondência espiritual.

O Poder do Pai estava infuso em Cristo e também em seu corpo, a parte humana de Jesus. Assim a VONTADE estava presente em Cristo e Seus veículos, numa prova inequívoca de que o PODER DIVINO tem Seu reino na Humanidade e o Pai estava no Filho como Este no Pai. Tanto isto é verdade que o espírito constantemente se expressa em matéria. Como disse Heindel: “matéria é espírito cristalizado”. Cristo fez sentir esta evidência aos fariseus ao dizer-lhes: “acreditai em Mim, ao menos pelas obras que eu faço, pois não sou eu que faço as obras, mas Aquele que me enviou”. Daí podemos concluir que não conhecemos o Pai, porque não damos ainda livre acesso ao Poder de Sua Vontade em nós. Se nos tornássemos canais, como o foi Jesus, poderia Deus fazer através de nós as Suas obras. Atualmente impedimos essa divina expressão porque desviamos as forças superiores nas atividades inferiores que os maus hábitos impõem. No “Pai Nosso” exprimimos o desejo de alcançar esse estado futuro, quando nosso Espírito Divino se dirige ao Pai, dizendo “Seja feita a Tua Vontade, na Terra como nos Céus”. Quando o alcançarmos, seremos as varas ligadas à Videira, na parábola do Evangelho.

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Até aqui estivemos tratando do primeiro aspecto divino no ser humano: Vontade. Prossigamos, abordando o segundo aspecto, que é Amor.

Essa divina e transcendental qualidade flui eternamente em todo o Universo. Todos os mundos entoam o cântico de Amor que Vibra como parte mesma de toda a imensidão do infinito. Os mundos foram feitos de Amor. As harmonias das esferas, experimentadas pelo iniciado Pitágoras, são hinos de Amor que vibram com indescritível formosura e colorido. Singular a harmonia do amor: Deus ama constantemente Sua criação e fez vivê-la por obra de Seu Amor, porque “Deus é Amor e quem vive em Amor vive em Deus, e Deus nele”. Este é o segundo aspecto de Deus em nós. Quando, no “Pai Nosso”, o Espírito de Vida se dirige à Sua contraparte, o Filho, diz: “Venha a nós o Teu Reino", anelando a possibilidade de exalar através de nós o perfume do Amor que d'Ele recebemos constantemente. E Deus nos amou de tal maneira que nos deu o Seu Filho Unigênito para que através d'Ele todos nos salvemos. E este nos dignificou ao chamar-nos Seus amigos e ensinando-nos a “amar o próximo como a nós mesmos”. Portanto, o Amor liberta o ser humano de suas próprias limitações para que em seu Ego se manifeste o Pai, como este se manifestou no Filho. E, como segundo aspecto de Deus, o Seu Filho em nós se manifesta, como único salvador, compassivo, amando-nos até a última gota de Seu sangue.

Passemos, em seguida, ao terceiro aspecto de Deus, e também de nosso Ego, que é a Sabedoria. Desejosos de Servir à divina Essência, procuramos dar passagem Aquele que tem sabedoria, a Omnisciência, o conhecimento puro. Como em Deus, também em nosso Ego existe essa maravilhosa panaceia. Existimos por Sua Sabedoria, vivemos por e em Sua Sabedoria e, portanto, também a possuímos. Sua Sabedoria está sempre presente em nós, porque é Omnipresente. Mas devemos aprender a dinamizá-la em nós e, por isso, no “Pai Nosso”, dirigindo-se à sua contraparte, o Espírito Santo, diz nosso Espírito Humano: “Santificado seja o Teu Nome”. Em sua meditação o Aspirante sincero poderá achar essa fonte através do seu Ego, porque vive a Divindade em Si, por Si mesma e nas Suas criaturas.

Finalizando, podemos resumir que as três virtudes estão presentes na ação de Deus. Que:

  • Manifestação da Essência Divina: Vontade, Poder, Querer;
  • Manifestação da Essência Divina: Amor, Caridade, Fraternidade;
  • Manifestação da Essência Divina: Sabedoria, Conhecimento, Princípio do Poder Criador.

Essas três potências, inerentes ao Ego, fazem-nos semelhantes a Deus, conforme nos ensina a Bíblia: que Ele nos criou a Sua Imagem e Semelhança.

(de F. Ph. Preuss - Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 01/1964)