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O Som e os Éteres – V - A Astronomia Entoa Uma Nova Canção

O Som e os Éteres – V
A Astronomia Entoa Uma Nova Canção

Não é necessário discutir aqui, minuciosamente, as teorias dos antigos mestres das Escolas de Mistérios da Grécia: Pitágoras, Platão e seus sucessores. É interessante, porém, observar que os antigos videntes e astrônomos reconheceram a existência de um centro espiritual ígneo ao redor do qual o sistema solar parecia dar voltas: um "Sol Central" ou "Fogo Central", que não era o Sol. E a revolução em torno deste Fogo Central era a causa, segundo eles, da precessão equinocial.

O Grande Ano Platônico não estava longe do Grande Ano Sideral da moderna Astronomia. E é evidente que o Fogo Central de Platão deve estar relacionado com o círculo imaginário descrito no céu, no Polo Norte, pela rotação do eixo terrestre, porque todas as estrelas, assim como o Sol, a Lua e os Planetas, giram em círculos ao redor do Polo (mas existe outra possibilidade como veremos). Pitágoras algumas vezes chamou a isto uma "Contra-Terra", mais que "Contra-Sol", por causa, evidentemente de sua associação com as condições terráqueas. Existe um número específico de estrelas ao redor do Polo Norte celeste, para o qual o Polo Terrestre aponta no curso do Grande Ano Sideral. Existem também tempos, no curso deste Grande Ano, nos quais o Polo não aponta uma estrela, senão um espaço entre as estrelas. Quando o Polo aponta uma estrela específica, é compreensível que essa estrela parece ser uma "Contra-Estrela". Quando, porém, o Polo aponta para o espaço, os antigos, naturalmente imaginaram a hipótese de uma "Terra Invisível", ou "Contra-Terra", ao redor da qual o Polo girava durante o Grande Ano.

Os romanos adotaram a Astronomia e a filosofia gregas, assim como a arte e a literatura da Grécia. E entre os sábios romanos, assim desenvolvidos, esteve Scipião, o Jovem, de quem Cícero conta uma história interessante.

Este Scipião sonha que ascende à Via Láctea, donde ouve majestosa harmonia fluir através do espaço, e pergunta a seu avô, Scipião, o Velho, que mora ali como espírito entre outros espíritos bem-aventurados: "Que é este grande e agradável som que enche meus ouvidos?" O avô responde: é a harmonia dos acordes que representam os intervalos dos tons emitidos pelos Planetas e que são produzidos pelos movimentos das esferas em suas órbitas. A esfera mais exterior, Saturno, emite a nota mais alta, devido a que se move mais rapidamente em sua larga trajetória.

A Lua emite a mais baixa (mas outros antigos escritores invertem isto, afirmando que a Lua emite a mais alta nota e Saturno a mais baixa da escala solar. E Milton concorda com este último ponto-de-vista).

Segundo o sistema de Ptolomeu – que se referia a Aristóteles principalmente – cada Planeta era levado ao redor dos céus em uma esfera invisível, e o Arcanjo ou Poder Celestial do Planeta residia na esfera. Uma esfera se acomodava dentro da outra: a de Saturno sendo a mais externa, e a esfera das estrelas fixas mais além da de Saturno. O Arcanjo ou Deus da esfera conduzia o Planeta pelos céus como uma lâmpada. Havia alguns homens, todavia, mesmo nos tempos antigos, que sustentavam a ideia de que os Planetas se moviam ao redor do Sol, e que cada corpo planetário individual, tal como se contemplava no espaço, era a indicação externa de um Espírito ou Deus Arcangélico. Este ponto-de-vista, por suposto, chegou a prevalecer, já que o sistema de esferas de Ptolomeu foi gradualmente abandonado junto com seu conceito geocêntrico. O que sucede aqui, é que os filósofos construíram uma filosofia sobre a Astronomia de Ptolomeu, e esta por sua vez, converteu-se em base da religião.

Ainda hoje, a religião moderna está procurando conformar-se com a nova Astronomia de nosso próprio tempo, e com toda propriedade, porque é correto hoje, como sempre foi, que o homem, em certos sentidos, cria seus próprios deuses, à sua própria imagem. Daí que os gregos dissessem que o "Homem é a medida do Universo".

Portanto, quando a Astronomia Ptolomaica (geocêntrica) encontrava aceitação acreditava-se que a Música das Esferas provinha da grande esfera invisível ou de cristal que conduzia a cada Planeta, e na qual, verdadeiramente, residia o Espírito Arcangélico. Os místicos diziam que a música era o canto do Espírito, e não o som produzido pelo Planeta em revolução. Com a Astronomia heliocêntrica (o Sol no centro), chegou a ser dominante a ideia de que o Planeta mesmo emitia os sons, e que o mesmo era o corpo de um deus ou Arcanjo. Estas ideias teosóficas eram as interpretações dos fenômenos científicos, oferecidas pelos místicos, os videntes e os filósofos.

Agora estamos em posição de observar porque Max Heindel afirmou que desde o ponto-de-vista do Mundo do Desejo, o sistema Ptolomaico conservava pontos de valor. O homem, é, todavia, em sua consciência, grandemente geocêntrico. Desde o ponto-de-vista do mundo da alma, que vê o Universo em seu aspecto espiritual interno, aquele é um complexo de seres viventes, e o canto destes seres, coletivamente falando, constituiu a palavra de Deus, o verbo, que cantando produz a criação a partir do caos primordial e que o sustêm no processo da evolução.

A evolução é um cântico contínuo de Deus. Esta canção cósmica afirma Max Heindel, modela ou agrega a Substância Raiz Cósmica em formas e figuras, semelhantemente como as vibrações musicais modelam figuras na areia, segundo as experiências de Gladny.

Na meditação sobre o som cósmico ou Verbo, tal como incorporado nestes Arcanjos cantantes, a "esfera" da que se pensa que se estende pelo espaço interno dentro da órbita da revolução do Planeta, converte-se em "aura" do Espírito Planetário e simboliza um estado de consciência cósmica. Cada uma das esferas encerra e interpenetra a seguinte esfera menor, e todas se aninham dentro da esfera de estrelas fixas, que por sua vez se acomoda na Esfera do Espaço, Mente Primordial, que é a inteligência ordenadora e governadora de todas as esferas. Mais além encontra-se o Uno que é incompreensível e abarca tudo.

As nove esferas cósmicas do Sistema Ptolomaico davam voltas ao redor da Terra, considerada "a pedra fundamental do Universo". A ordem dos Planetas era contada a partir da Terra, assim: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, seguido, como dissemos, pela esfera de estrelas fixas, encerradas no Primum Mobile ou Mente Primordial, culminando na Inefável Unidade.

Estas esferas estão acomodadas, uma dentro da outra, com a Terra no centro, e cada uma é governada por um "Deus", ou Arcanjo, que faz a esfera dar voltas, conduzindo o Planeta ao redor de si mesmo, em sua órbita. Cada invisível esfera é a "aura" de influência do Arcanjo, do qual o Planeta visível é um representante ante os sentidos da humanidade, uma espécie de sinal, por assim dizer, ensejado pelo Espírito Planetário. O Planeta é assim, um símbolo do Arcanjo. Este é o conceito que os antigos místicos usaram como base das meditações Astronômicas, por meio das quais desejavam alcançar uma visão cósmica.

A meditação, sobre e nestas esferas, em muitos casos abriu a mente a uma revelação do Espírito Arcangélico do Planeta, que está, por suposto, presente em todas as partes do espaço mental:

• Miguel para o Sol,
• Rafael para Mercúrio,
• Anael para Vênus,
• Gabriel para a Lua,
• Samael para Marte,
• Zacariel para Júpiter,
• Cassiel para Saturno.

Há outros nomes também para o Arcanjo que incluía em sua consciência uma grande Hierarquia de Anjos. É bom recordar que estes nomes de Arcanjos, que nos parecem hebreus, eram familiares a todo o império persa ao oeste do Eufrates, onde o aramaico (língua falada por Jesus) era o idioma comercial e oficial.

No sistema heliocêntrico, cada Planeta é fisicamente um Arcanjo encarnado, voando ao redor dos céus, no espaço exterior, enquanto que sua aura se estende em torno de cada Planeta separadamente, no espaço interno. Os ocultistas dizem que a aura astral dos Planetas Vênus e Marte se entremesclam com aura da Terra, porque estes dois Planetas são nossos vizinhos mais próximos, com exceção da Lua, que é nosso satélite e parte de nós mesmos. A entremescla das auras de Vênus e Marte, indica um laço evolutivo muito próximo entre os três Planetas. No sistema Ptolomaico as duas esferas mais próximas, depois da Lua, eram Mercúrio e Vênus.

Podemos expressar a relação da Terra com Marte e Vênus de outra forma, dizendo que os corpos de desejos destes Planetas mesclam-se, uns com os outros, exatamente como quando três seres humanos estão separados, uns dos outros, por poucos centímetros: suas auras se mesclam e todos tendem a reagir ao estado emocional de qualquer deles. Podemos também notar que no espaço mental todas as esferas planetárias se entremesclam com referência a seus corpos mentais ou auras mentais, sugerindo que o contato telepático pode ser estabelecido com outros Planetas, muito tempo antes de que seja possível viajar até eles, seja em corpo-alma, seja em corpo físico.
Shakespeare expressa a teosofia do sistema heliocêntrico quando diz: "Não existe a menor orbe que tu contemples, que em seu movimento como um Anjo não cante, imitando os Querubins de olhos brilhantes. Mas enquanto esta lodosa vestimenta de podridão a encerre, não poderemos ouvir a canção".

E assim também, em palavras que Shakespeare deve ter lido, Scipíão, o Velho, explicou a seu neto que "os ouvidos dos mortais estão cheios deste som, mas são incapazes de ouvi-lo". E Macrobius escreveu: "Não captamos o som da música que surge do constante redemoinho das esferas, devido a que é demasiado grande para introduzir-se no estreito espaço de nossos ouvidos".

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz em 1/1976)